A paisagem, tão pronta que estava no final de tanto preparo e apuramento de vaidades, esqueceu-se de dormir.
E quem não dorme não sonha, pois o sonho só pode ser despertado naquele lado destemido da própria consciência. E a gloriosa paisagem, despida de sonhos, provoada de insónias inalienáveis, viu-se prostrada perante uma existência sem côr, sem melodia, sem linguagem.
Tudo aquilo que a paisagem construira nos seus momentos de sono relaxante estava agora abandonado no fundo de um poço escuro de memórias denegridas, sem odor, sem eco, sem retorno.
Resta-lhe simular. O seu pensamento é apenas um repositório de simulações pensadas, de imagens copiadas, de cores travestidas. A sua imaginação é uma definição, prevista e previsível, falada em tom de gaguez aguardando o complemento externo do tom no discurso. Não tem passado de memória, comprou e tomou como seu uma memória do passado. E, nesta estratégia de condição social ascendente, afirmou o seu poder como paisagem dominante, como horizonte sobranceiro, como medida do destino.
Mas, seja como for, é uma paisagem de vaidades sem cor, mesmo que exiba como mascote preferida um pintor com paleta. A cor vive no sonho e este apenas é livre naquele estado de distância em que mergulhamos no íntimo da nossa própria memória e enfrentamos todas as imagens que a paisagem da aparência não permite exibir na consciência durante o dia em que respiramos a linguagem em que nos obrigam.
Mas resta-nos uma satisfação. Qualquer paisagem só é digna de destino quando conserva a cor que o destino lhe concedeu. É por isso que nos sentimos livres. As paisagens sem cor apenas existem para aqueles que acordam sem jamais ter sonhado.
É por isso que não vou. Ainda continuo a fugir à insónia.
sábado, janeiro 12, 2008
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