sábado, junho 13, 2009

Esse olhar
no mar cristalino da retina navega o sentimento do desdém
e o sarcasmo
e o silêncio de um sorriso sem expressão no contorno dos lábios
sem qualquer traço no desenho das rugas do rosto
como um sfumato tirado da solidão de um leonardo refém de fugas para um destino de criações
esse olhar que não traz amor nem mensagem
que não seduz
que não tinge de cor qualquer matiz da alma
que não deixa qualquer esperança na voz do destino.

Apenas o desdém
visível no briho dos olhos
como se a madrugada tivesse acordado de uma insónia
e o passado renascesse como a luz do silêncio numa cela preenchida de maldades.

esse olhar
que traduz um futuro tão pesado como a ambição frustrada de transpor a memória para um conto de fantasmas
que conduz a vaidade para uma humildade humilhada e perdida no pensamento
como se a vida fosse uma mariposa arrependida do seu passado de casulo
como se o fio de uma teia fosse a vergonha de uma larva condenada a pintar uma simetria de cores mais belas que o simples olhar de um voo frenético na noite.

esse olhar de desdém que tanto magoa e que tanta dor que não dói por tanta que deve ser

esse olhar no mar de uma lágrima escondida
que me prostra perante a criação
como se deus fosse uma doença que me obrigou a nascer
e a ter alma
e a ter genes
e a ter um destino em fuga da memória

esta vertigem de ter nascido sem ser consultado
de ser um bicho falante, instante e devoto devorador de ilusões.

esse olhar que me mata e que me obriga o olhar um mar que me condena
nesta tempestade sem vento, neste deserto sem sol, neste amargo do bafo.

esse olhar matém-me vivo.

Mas que merda... porque é que tanto vislumbro para lá desse olhar?