a mariposa está viva.
retirei-a da mão, numa violenta remoção de carne e pele e deixei-a no melhor estado que a existência nos pode permitir: postada na eternidade da memória.
Por tal, a minha filha recorda quando eu, num volteio de magia, movimentava o polegar concertado com o indicador e a mariposa voava, promovendo o sono e a tranquilidade de uma noite livre de inquietações imagéticas.
Por isso está viva. Porque não é pele, não é carne nem aquele azulado de uma tinta negra perdida na gordura da epiderme. É memória que não esquece. E é beleza que não pode ser revista nem alterada. É, mais que tudo, eternidade no trato. É a certeza que continuo a ser o pai da filha que encontra na imaginação a sedução do voo daquela única mariposa.
E mesmo quando observa esta cicatriz que outrora albergava uma tosca mariposa, vê em mim o depositário de uma memória de magias felizes de uma infância e, nessa chaga mal curada, reside o meu orgulho de pai, porque nela a minha filha descortina sempre um bater de asas que só a imaginação pode entoar num silêncio de cumplicidade inocente.
É secreto este destino. É uma mística sem códigos. Neste profundo inflar da imaginação e outro tão extenso caminhar paciente, vivi como pai e fendi a pele, puncionei o espírito, turvei a alma, inebriei a ânsia, poli o amor, descarnei a paixão e contemplei-me contemplando-a. Por tanto, ou por tão pouco, sou pai de uma apreciadora involuntária de uma mariposa que nunca voou.
O que unicamente me oferece felicidade é este percurso. A certeza de uma glória que não é minha, de um futuro que não terei, de um caminho que jamais seria possível eu percorrer. Não é o voo da mariposa que nunca voou, mas sim a imaginação e a paciência de quem sempre acreditou vê-la voar. É aqui que sinto que o meu contributo foi de uma útil humildade necessária. Nunca afirmei que aquela borboleta mal pintada fosse uma mentira contada à inocência de uma criança. Mas jamais afirmei que fosse verdade o voo daquela mariposa. Tudo ficou no livre arbítrio da imaginação e no destino do tempo.
Agora, sou feliz.
Que a minha filha me detesta mais vezes do que aquelas que me ama... ainda bem. Desde o dia em que nasceu perdi a liberdade de ser eu e conquistei a liberdade de ser pai. Quem não pode ser odiado por tal? Desde o dia em que nasceu, o charuto que fumei foi pela alegria de saber que os meus genes viviam além do meu corpo e não pelo prazer de estimulação das minhas sinapses neurais... quem não pode ser odiado por tal? Desde o dia em que nasceu, amei para amá-la e qualquer prazer de alma tornou-se mero mecanismo instrumental de uma missão de vida... quem não pode ser odiado por tal?
Tornei-me frio para garantir o calor do destino que gerei. Tornei-me feio para venerar a beleza da criação que desejei. Tornei-me sério para servir a jovialidade de um futuro augurado na minha alma. Tornei-me trabalhador, controverso, obstinado, de objectivos longos e valores vincados no segredo do trincar de língua... tornei-me pai e tudo foi um renascer.
E agora, o que é que sou? Uma caricata imagem de um peão perdido na sétima linha de um tabuleiro de xadrez. Mesmo que não existissem barreiras e a coroação fosse eminente, jamais avançaria porque me aterroriza a terminantemente declinável ideia de ser coroado noutra qualquer outra peça do jogo que me retire esta tão grata natureza do peão que nasceu livre para vaguear em lutas, paixões, extases e combates, mas que renasceu na sétima linha para ser pai e garantir um jogo de glórias que só um pai consegue observar, embora vestido ainda de peão mas com a alma de um progenitor de princesas.
E sei que quando morrer não serei recordado por ser quem sou mas sim por ser o pai que fui.
Por tal, venero a família, venero a minha filha e aquilo que sou por ter deixado de ser aquilo que fui.
É por isso que na mariposa que guardo na memória reconheço que a sua natureza se revela pela habildade de um "voler" como aquele voo que a alma alcança na quietude de um espírito paciente, e desprezo aquele trepidante "voler" dos sentidos que nos rouba o destino e nos destina a furtar aos destinos que de nós dependem o futuro que devemos venerar.
E, como não podia deixar de ser óbvio, sou feliz por ser pai... quem não é odiado por isso?
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