Chegou a manhã. Melhor dizendo, terminou a madrugada. De facto, jamais nasce uma manhã quando uma madrugada é vazia de sono e de sonhos. Sentiu a nova luz do dia nascente e a sua pele transpirou o despertar. Aquele frio que devia existir como incómodo de uma madrugada desnudada mantinha-se como um bálsamo tranquilizante de uma noite perdida em silêncios de imagens e tempestades de uma retina incapaz de calmaria no aconchego das pálpebras que tardou e não conseguiu fixar-se.
Retirou o corpo do leito e arrastou-o para a chuva quente de um duche. Recomeçou um novo ciclo.
Tudo seria normal e voltaria ao dia-a-dia como se o mundo de paisagens esvoaçantes apenas fosse artíficio de uma imaginação ansiosa, de dormir acordado, de um corpo dividido entre o suor da pele e o pólen de todas as cores. Voltaria ao tempo com medida, aos segundos que geram minutos, que geram horas, que decidem dias, que completam a vida, que avisam a morte. Voltaria ao tempo, o tempo de estar vivo.
Era um ser tão normal como qualquer humano na luz do dia. Encaminhava-se para o trabalho e executava a sua missão com o sorriso, o rosto, a caligrafia e o génio que a experiência de vida lhe conferiu no desempenho. E a rotina, essa malvada fêmea que transforma o prazer de fazer num percurso adivinhado e insalubre, repete-se como se hoje fosse o tanto de ontem e o futuro mais adivinhado como augurio de uma qualquer arte de sageza. Só a rotina consegue obrigar o tempo a sorver-se como se a sua certeza fosse um ficção paradoxal.
Mas nesse dia, um desses dias da rotina, a magia vestiu-se de feitiço e a rotina mascarou-se de perfídia. O tempo parou para fixar o olhar, escolher o alvo, disparar um vómito de inquietação, turvar a consciência, viciar o discernimento, tingir o sangue com ácidos de amargura e, afinal, pareceu ser que aquela madrugada não tinha sido um fim de noite e o nascer dia não trouxera sol consigo mas apenas o reflexo da chama quente do incêndio de uma consciência ignara.
"Esta tarefa era sua, mas, por enquanto, iremos entregá-la noutro serviço, que é o mais indicado", disseram-lhe. Focu aliviado. Menos uma rotina para aturar, mais tempo e disponibilidade para outras coisas.
"Mas esteja atento, não vá alguma coisa correr mal com aquela outra gente", observaram-lhe. É óbvio. O princípio é sempre o mesmo: se o desempenho for bem conseguido, lá fica. Se correr mal, alguém será responsável pela desatenção. Cumpriu com os pormenores. Reencaminhou as matérias com conhecimento às chefias e ficou atento. Sem notícias do outro lado. O silêncio adivinha um bom curso do desempenho. Os prazos passaram e a matéria presumia-se concluída com êxito. Mas não.
"Aquela gente não tem tempo para fazer o trabalho. Avance com isso". Devolveram-lhe o assunto. "Mas já estamos fora do prazo... vou fazer o melhor que posso". E fez, com a vertigem do gesto que a matéria exigia. Veio a resposta: foram recusados por estar fora do prazo. E com ele ficou o ónus da culpa... não porque não tenha feito com a eficácia que a matéria exigia, mas porque não ficou atento a quem não lhe deve atenção e não fez o que supostamente já deveria ter sido feito.
A pior rotina da vida é aquela que se inscreve fora de qualquer calendário. Porque só acontece quando não temos mão na sua condução. Nesse dia, aprendeu isso. Em sociedade, vivemos em planos de oportunidade e as relações humanas vertem-se em canais diversos onde uma babilónia de ideias se chocam em gestos de força e contenção. Aqueles que resistem avançam no curso do tempo e aqueles que desistem apenas contemplam o curso da vida. Uns viajam para uma morte anunciada, outros adiam uma vida desejada. Mas, no fundo, nem uns nem outros são felizes. Em sociedade, os motores da existência alimentam-se de escrita, de linguagem, de silogismos. Em sociedade, o recuo comporta um nexo tão líquido quanto o avanço e um passo é tão gigante como uma partícula de luz que se liberta de uma estrela.
Por isso não são felizes. São apenas humanos. A felicidade não está na linguagem, na escrita, no som ou nas cores. É apenas a única substância que conforta a alma e a mantém livre desse medo de vazio que preenche as madrugadas de insónia.
segunda-feira, março 22, 2010
terça-feira, outubro 20, 2009
a mariposa dourada III
O que mais precisaria para se sentir preenchido de alma, de sangue, da frescura do tédio?
Nada mais poderia ocupar o seu tempo que a memória de um tempo perdido. A sua mente estava infecta de um vazio sem explicação plausível. Era nascido de uma memória e de um espaço sem destino. Procurava nas rugas discretas da parede do seu quarto imagens que só o olhar conseguia desenhar, como se a face da imaginação tivesse aquele tom pálido a duas dimensões disfarçadas num esquiço de estuque. Procurava no reflexo da sua sombra uma qualquer materialidade de um anseio de existência. Procura justificar-se no espaço, no tempo, na escrita do seu destino.
Quando caminhava pelas ruas sabia bem o quanto via por quanto não era visto. E o silêncio de cada passo era a amargura de uma qualquer magia perdida na tristeza de um universo de fantasias distante e distanciado do seu abraço, do seu desejo de amar, de perseguir uma fé, de ser humano.
Mas não. Era inexoravelmente um mero feiticeiro criador de mariposas.
No pequeno espaço do seu polegar nascia aquele pedaço discreto de marfim dourado, dia a dia, desejo a desejo, lágrima por lágrima. Desenvolvia-se como um pingo de tinta perdido na água, sumia-se na pele, renascia na carne, brotava do olhar, e uma mariposa singela, inocente, fresca e livre, de um sopro branco e luminoso, libertava-se e voava longamente pelo pensamento, criando mundos de alegria, universos de sibilantes tons de cor, numa vertigem louca como água que cai sem leito de rio.
Olhando a mão, olhando a pele, olhando o íntimo do seu ser, ficava um rasto de sangue negro e podre, como um parto de bruxa debochada em noite de lua, como carne velha abandonada à dança das moscas e orgia de larvas sedentas de odores que a memória obsta a conservar.
Olhando a mão, apenas as lágrimas o confortam porque ainda lhe trazem o sal que lhe toca o canto do lábio e que a língua saboreia como único mel possível de um vortex de luz que dele se apartou.
Era sempre este ritual de silêncio que ocupava as suas noites antes do sono. Sentado na cama, recordava o dia como se uma vida nele tivesse acontecido e sentia-se como mago de um gigante berlinde povoado de mariposas e vigiado por voos que conservam a sombra, que devolvem a luz, que estimulam a chuva, que abrem o rosto da lua, que alternam as marés, que pesam o ar, que induzem o sonho. As mariposas que em todo o lado se insinuam e que, por força do destino, todas as noites dele nasciam, num silêncio ingrato, num ritual sem fiéis, numa clausura de tristeza.
Sabia que no outro dia iria acordar, sair à rua, vestir a pele daquele tempo, falar a voz de cada momento, olhar as cores de cada luz e talvez, talvez ainda, pudesse encontrar um ser digno de partilha, um rosto com pele macia como a asa de uma borboleta e aquele envolvimento elegante no passo como uma dança de colibri junto de uma flor prenhe de néctar. Talvez volte a acontecer. Ou talvez a manhã que vem seja chuvosa, lave o pólen que invade o ar e esconda a luz que o sol asperge sobre a vida. Talvez afinal seja feio e a tristeza oculte as cores do arco-íris que anima a alma e reste apenas o outro lado do polegar, aquela parte de um calo disforme, duro como a pele de um demónio, amargo como aquilo que não se sente.
Quem sabe o que virá amanhã?
Resta-lhe a certeza que há destino. O mistério nunca residiu na recordação. É marca do futuro.
Nada mais poderia ocupar o seu tempo que a memória de um tempo perdido. A sua mente estava infecta de um vazio sem explicação plausível. Era nascido de uma memória e de um espaço sem destino. Procurava nas rugas discretas da parede do seu quarto imagens que só o olhar conseguia desenhar, como se a face da imaginação tivesse aquele tom pálido a duas dimensões disfarçadas num esquiço de estuque. Procurava no reflexo da sua sombra uma qualquer materialidade de um anseio de existência. Procura justificar-se no espaço, no tempo, na escrita do seu destino.
Quando caminhava pelas ruas sabia bem o quanto via por quanto não era visto. E o silêncio de cada passo era a amargura de uma qualquer magia perdida na tristeza de um universo de fantasias distante e distanciado do seu abraço, do seu desejo de amar, de perseguir uma fé, de ser humano.
Mas não. Era inexoravelmente um mero feiticeiro criador de mariposas.
No pequeno espaço do seu polegar nascia aquele pedaço discreto de marfim dourado, dia a dia, desejo a desejo, lágrima por lágrima. Desenvolvia-se como um pingo de tinta perdido na água, sumia-se na pele, renascia na carne, brotava do olhar, e uma mariposa singela, inocente, fresca e livre, de um sopro branco e luminoso, libertava-se e voava longamente pelo pensamento, criando mundos de alegria, universos de sibilantes tons de cor, numa vertigem louca como água que cai sem leito de rio.
Olhando a mão, olhando a pele, olhando o íntimo do seu ser, ficava um rasto de sangue negro e podre, como um parto de bruxa debochada em noite de lua, como carne velha abandonada à dança das moscas e orgia de larvas sedentas de odores que a memória obsta a conservar.
Olhando a mão, apenas as lágrimas o confortam porque ainda lhe trazem o sal que lhe toca o canto do lábio e que a língua saboreia como único mel possível de um vortex de luz que dele se apartou.
Era sempre este ritual de silêncio que ocupava as suas noites antes do sono. Sentado na cama, recordava o dia como se uma vida nele tivesse acontecido e sentia-se como mago de um gigante berlinde povoado de mariposas e vigiado por voos que conservam a sombra, que devolvem a luz, que estimulam a chuva, que abrem o rosto da lua, que alternam as marés, que pesam o ar, que induzem o sonho. As mariposas que em todo o lado se insinuam e que, por força do destino, todas as noites dele nasciam, num silêncio ingrato, num ritual sem fiéis, numa clausura de tristeza.
Sabia que no outro dia iria acordar, sair à rua, vestir a pele daquele tempo, falar a voz de cada momento, olhar as cores de cada luz e talvez, talvez ainda, pudesse encontrar um ser digno de partilha, um rosto com pele macia como a asa de uma borboleta e aquele envolvimento elegante no passo como uma dança de colibri junto de uma flor prenhe de néctar. Talvez volte a acontecer. Ou talvez a manhã que vem seja chuvosa, lave o pólen que invade o ar e esconda a luz que o sol asperge sobre a vida. Talvez afinal seja feio e a tristeza oculte as cores do arco-íris que anima a alma e reste apenas o outro lado do polegar, aquela parte de um calo disforme, duro como a pele de um demónio, amargo como aquilo que não se sente.
Quem sabe o que virá amanhã?
Resta-lhe a certeza que há destino. O mistério nunca residiu na recordação. É marca do futuro.
segunda-feira, setembro 28, 2009
a mariposa dourada II
a mariposa está viva.
retirei-a da mão, numa violenta remoção de carne e pele e deixei-a no melhor estado que a existência nos pode permitir: postada na eternidade da memória.
Por tal, a minha filha recorda quando eu, num volteio de magia, movimentava o polegar concertado com o indicador e a mariposa voava, promovendo o sono e a tranquilidade de uma noite livre de inquietações imagéticas.
Por isso está viva. Porque não é pele, não é carne nem aquele azulado de uma tinta negra perdida na gordura da epiderme. É memória que não esquece. E é beleza que não pode ser revista nem alterada. É, mais que tudo, eternidade no trato. É a certeza que continuo a ser o pai da filha que encontra na imaginação a sedução do voo daquela única mariposa.
E mesmo quando observa esta cicatriz que outrora albergava uma tosca mariposa, vê em mim o depositário de uma memória de magias felizes de uma infância e, nessa chaga mal curada, reside o meu orgulho de pai, porque nela a minha filha descortina sempre um bater de asas que só a imaginação pode entoar num silêncio de cumplicidade inocente.
É secreto este destino. É uma mística sem códigos. Neste profundo inflar da imaginação e outro tão extenso caminhar paciente, vivi como pai e fendi a pele, puncionei o espírito, turvei a alma, inebriei a ânsia, poli o amor, descarnei a paixão e contemplei-me contemplando-a. Por tanto, ou por tão pouco, sou pai de uma apreciadora involuntária de uma mariposa que nunca voou.
O que unicamente me oferece felicidade é este percurso. A certeza de uma glória que não é minha, de um futuro que não terei, de um caminho que jamais seria possível eu percorrer. Não é o voo da mariposa que nunca voou, mas sim a imaginação e a paciência de quem sempre acreditou vê-la voar. É aqui que sinto que o meu contributo foi de uma útil humildade necessária. Nunca afirmei que aquela borboleta mal pintada fosse uma mentira contada à inocência de uma criança. Mas jamais afirmei que fosse verdade o voo daquela mariposa. Tudo ficou no livre arbítrio da imaginação e no destino do tempo.
Agora, sou feliz.
Que a minha filha me detesta mais vezes do que aquelas que me ama... ainda bem. Desde o dia em que nasceu perdi a liberdade de ser eu e conquistei a liberdade de ser pai. Quem não pode ser odiado por tal? Desde o dia em que nasceu, o charuto que fumei foi pela alegria de saber que os meus genes viviam além do meu corpo e não pelo prazer de estimulação das minhas sinapses neurais... quem não pode ser odiado por tal? Desde o dia em que nasceu, amei para amá-la e qualquer prazer de alma tornou-se mero mecanismo instrumental de uma missão de vida... quem não pode ser odiado por tal?
Tornei-me frio para garantir o calor do destino que gerei. Tornei-me feio para venerar a beleza da criação que desejei. Tornei-me sério para servir a jovialidade de um futuro augurado na minha alma. Tornei-me trabalhador, controverso, obstinado, de objectivos longos e valores vincados no segredo do trincar de língua... tornei-me pai e tudo foi um renascer.
E agora, o que é que sou? Uma caricata imagem de um peão perdido na sétima linha de um tabuleiro de xadrez. Mesmo que não existissem barreiras e a coroação fosse eminente, jamais avançaria porque me aterroriza a terminantemente declinável ideia de ser coroado noutra qualquer outra peça do jogo que me retire esta tão grata natureza do peão que nasceu livre para vaguear em lutas, paixões, extases e combates, mas que renasceu na sétima linha para ser pai e garantir um jogo de glórias que só um pai consegue observar, embora vestido ainda de peão mas com a alma de um progenitor de princesas.
E sei que quando morrer não serei recordado por ser quem sou mas sim por ser o pai que fui.
Por tal, venero a família, venero a minha filha e aquilo que sou por ter deixado de ser aquilo que fui.
É por isso que na mariposa que guardo na memória reconheço que a sua natureza se revela pela habildade de um "voler" como aquele voo que a alma alcança na quietude de um espírito paciente, e desprezo aquele trepidante "voler" dos sentidos que nos rouba o destino e nos destina a furtar aos destinos que de nós dependem o futuro que devemos venerar.
E, como não podia deixar de ser óbvio, sou feliz por ser pai... quem não é odiado por isso?
sábado, agosto 22, 2009
não é o excesso da linguagem do gesto da pertinência da ausência da leviandade desprovida de intelecto
que obriga ao silêncio a tristeza da voz que não me atrevo a proclamar.
é a distância que de tão extensa já nem descortina a memória do horizonte do abismo
numa estrábica poética sem verso de vida.
nunca o sono conseguiu vitoriar o despertar. e acreditá-lo é eternizar uma impagável vida em dívida.
e qualquer dívida, pregada na alma, como cruz de uma crença, não é para uma vida mas para vidas que o não seriam se para o abismo pudessemos fixar um curto horizonte palpável na certeza de cada passo.
o segredo estaria no abismo se algum abismo pudesse guardar segredos.
resta-nos aquele único censor que nos olha no reflexo do espelho.
e ainda bem. porque só ele nos pode devolver a inteligência.
que obriga ao silêncio a tristeza da voz que não me atrevo a proclamar.
é a distância que de tão extensa já nem descortina a memória do horizonte do abismo
numa estrábica poética sem verso de vida.
nunca o sono conseguiu vitoriar o despertar. e acreditá-lo é eternizar uma impagável vida em dívida.
e qualquer dívida, pregada na alma, como cruz de uma crença, não é para uma vida mas para vidas que o não seriam se para o abismo pudessemos fixar um curto horizonte palpável na certeza de cada passo.
o segredo estaria no abismo se algum abismo pudesse guardar segredos.
resta-nos aquele único censor que nos olha no reflexo do espelho.
e ainda bem. porque só ele nos pode devolver a inteligência.
sábado, junho 13, 2009
Esse olhar
no mar cristalino da retina navega o sentimento do desdém
e o sarcasmo
e o silêncio de um sorriso sem expressão no contorno dos lábios
sem qualquer traço no desenho das rugas do rosto
como um sfumato tirado da solidão de um leonardo refém de fugas para um destino de criações
esse olhar que não traz amor nem mensagem
que não seduz
que não tinge de cor qualquer matiz da alma
que não deixa qualquer esperança na voz do destino.
Apenas o desdém
visível no briho dos olhos
como se a madrugada tivesse acordado de uma insónia
e o passado renascesse como a luz do silêncio numa cela preenchida de maldades.
esse olhar
que traduz um futuro tão pesado como a ambição frustrada de transpor a memória para um conto de fantasmas
que conduz a vaidade para uma humildade humilhada e perdida no pensamento
como se a vida fosse uma mariposa arrependida do seu passado de casulo
como se o fio de uma teia fosse a vergonha de uma larva condenada a pintar uma simetria de cores mais belas que o simples olhar de um voo frenético na noite.
esse olhar de desdém que tanto magoa e que tanta dor que não dói por tanta que deve ser
esse olhar no mar de uma lágrima escondida
que me prostra perante a criação
como se deus fosse uma doença que me obrigou a nascer
e a ter alma
e a ter genes
e a ter um destino em fuga da memória
esta vertigem de ter nascido sem ser consultado
de ser um bicho falante, instante e devoto devorador de ilusões.
esse olhar que me mata e que me obriga o olhar um mar que me condena
nesta tempestade sem vento, neste deserto sem sol, neste amargo do bafo.
esse olhar matém-me vivo.
Mas que merda... porque é que tanto vislumbro para lá desse olhar?
no mar cristalino da retina navega o sentimento do desdém
e o sarcasmo
e o silêncio de um sorriso sem expressão no contorno dos lábios
sem qualquer traço no desenho das rugas do rosto
como um sfumato tirado da solidão de um leonardo refém de fugas para um destino de criações
esse olhar que não traz amor nem mensagem
que não seduz
que não tinge de cor qualquer matiz da alma
que não deixa qualquer esperança na voz do destino.
Apenas o desdém
visível no briho dos olhos
como se a madrugada tivesse acordado de uma insónia
e o passado renascesse como a luz do silêncio numa cela preenchida de maldades.
esse olhar
que traduz um futuro tão pesado como a ambição frustrada de transpor a memória para um conto de fantasmas
que conduz a vaidade para uma humildade humilhada e perdida no pensamento
como se a vida fosse uma mariposa arrependida do seu passado de casulo
como se o fio de uma teia fosse a vergonha de uma larva condenada a pintar uma simetria de cores mais belas que o simples olhar de um voo frenético na noite.
esse olhar de desdém que tanto magoa e que tanta dor que não dói por tanta que deve ser
esse olhar no mar de uma lágrima escondida
que me prostra perante a criação
como se deus fosse uma doença que me obrigou a nascer
e a ter alma
e a ter genes
e a ter um destino em fuga da memória
esta vertigem de ter nascido sem ser consultado
de ser um bicho falante, instante e devoto devorador de ilusões.
esse olhar que me mata e que me obriga o olhar um mar que me condena
nesta tempestade sem vento, neste deserto sem sol, neste amargo do bafo.
esse olhar matém-me vivo.
Mas que merda... porque é que tanto vislumbro para lá desse olhar?
quinta-feira, maio 28, 2009
Por cada momento que agora vivo é um momento tão precioso como qualquer momento em que agora sou.
é angustiante sentir este percurso em que a corrida é de abrandamento do passo.
viajo na procura do esquecimento obrigando-o ao ritual da memória.
cada dia que passa é sempre mais prazeroso que aquele que há-de vir.
porque o dia de amanhã é a certeza de que o espaço que me liga com o absurdo do destino da minha existência é cada vez mais curto.
E fico sem saber se nasci para conhecer a certeza do meu fim ou, por falta de resposta, nasci para contemplar o segredo da criação, de pescoço torcido para o calcanhar, como espectador que aguarda que o fim da história seja a repetição da legenda de apresentação de uma imagem repetida por uma sorte de artistas perdidos na memória do tempo.
O pior dia nossa vida é aquele momento que está depois porque está mais perto de um fim sem deus.
A melhor vida é olhar para o futuro tomando como certeza a lição da história. o marx pensou o mesmo. sabe-se lá se morreu...
é angustiante sentir este percurso em que a corrida é de abrandamento do passo.
viajo na procura do esquecimento obrigando-o ao ritual da memória.
cada dia que passa é sempre mais prazeroso que aquele que há-de vir.
porque o dia de amanhã é a certeza de que o espaço que me liga com o absurdo do destino da minha existência é cada vez mais curto.
E fico sem saber se nasci para conhecer a certeza do meu fim ou, por falta de resposta, nasci para contemplar o segredo da criação, de pescoço torcido para o calcanhar, como espectador que aguarda que o fim da história seja a repetição da legenda de apresentação de uma imagem repetida por uma sorte de artistas perdidos na memória do tempo.
O pior dia nossa vida é aquele momento que está depois porque está mais perto de um fim sem deus.
A melhor vida é olhar para o futuro tomando como certeza a lição da história. o marx pensou o mesmo. sabe-se lá se morreu...
quinta-feira, abril 23, 2009
Se um dia a imagem humana residisse apenas numa bandeira, qualquer hino seria um eterno órfão do suspiro intemporal da brisa da imaginação.
Se um dia o prazer de amar tingisse apenas a franja de uma qualquer bandeira, qualquer poema do homem se perderia na imensidão do som de um gemido de baleia.
Se um dia a glória pudesse ler-se na trama do tecido de uma bandeira, a vontade de crescer de uma montanha seria como o fluir em devir da mágoa de uma tempestade de chuva.
Se um dia a pluma de uma pomba pousasse no estremecer da brisa de uma bandeira, o voo do desejo seria como a perdição de um grito de guerreiro sem o hálito da fé.
Se um dia uma bandeira ousasse expressar o destino de uma bandeira, o suor do rosto seria tão humano como a fragancia da vertigem de um raio de luz em solo de nuvens secas perdidas na imensidão de sonhos imemoráveis.
Se um dia qualquer consciência pudesse ter qualquer bandeira, qualquer coisa da vida poderia ter sentido.
Mas, nesse dia, a saliva da arte teria a ausência do pincel, o sangue da terra seria barro húmido e de aroma duvidoso e as bandeiras, ai! as bandeiras das nossas prostrações mentais, seriam meros artefactos nascidos do génio de uma qualquer costureira de destinos.
Se um dia pudéssemos acreditar que existe uma bandeira para a vida, jamais conseguiríamos libertar-nos de um sufocante mastro solitário neste eterno oceano sem ilhas que é a nossa ânsia de liberdade.
Mas, um dia, a mesma bandeira que nos obrigou a beber a luz da obrigação jovial de nascer para esta existência, será o véu que nos encerrará a porta libertadora para o poder de aceitar a única certeza da não-vida do nosso percurso.
E, afinal, todo este andar por aqui tem por roupagem uma bandeira qualquer de uma cor sem padrão que nos preenche e de tal forma inevitável que existir sem uma bandeira é como ser mendigo sem um estado de caridade.
Subscrever:
Comentários (Atom)