Só posso ler-me, mesmo a sério, depois de morto.
É esse o único sentido que podemos encontrar para esse objectivo final que informa toda a nossa vida. Imagino que naquele momento de asfixia da lucidez da alma, quando o sangue vai perdendo a pureza do oxigénio e devolve ao cérebro o lixo vertiginoso que o corpo já não quer depurar, nesse tóxico e alucinante apagar do calor do pensamento, recuamos na memória e lemos todo o nosso passado não com as palavras cristalinas do bom senso da vida em que nos educámos, mas sim com todo o despudor de uma alma perdida que, em último grito, se liberta e se condena a um destino sem matéria de suporte, a uma eternidade de esquecimento, a um olhar para trás que vagueará como avião sem piloto num vazio sem queda porque sem fundo para o embate.
Só poderei ler-me quando já não puder escrever-me, porque esse destino final não será legível por palavras, nem visível por imagens, nem sentido por paixões. Apenas restará um sei-lá-o-quê que jamais poderá ter oportunidade de ser revisto ou testado. Imagino que aquele momento da morte é como um prémio sem júbilo, sem público nem discurso, sem suor ou qualquer arfar de glória incontida. Mas é apenas aquela certeza de um destino pensado na concepção: nascemos de uma competição de amor para conquistar um final de morte. E se deus existisse, ou mesmo se existe afinal, só pode ser para chatear, para negar um objectivo à vida, para lhe tirar um sentido final, uma certeza de percurso. Não posso crer que um deus possa existir para além desta vida que vivemos. Seria como fechar um ciclo deixando sempre a porta aberta, como condenar a circunferência a viver o drama absurdo da espiral, como obrigar o horizonte a olhar longe para o horizonte, a condenar o cancro a viver sem hospedeiro.
Só poderei ler-me quando estiver morto. E isso é a única alegria plena da minha existência: será, sem dúvida, uma irrepetível e exclusiva primeira e única edição, como se o corpo devolvesse ao feto da memória esquecida o prazer de se dividir regredindo, recuando ao pó, torcendo o tempo, aspirando o silêncio do vazio.
Por tal emoção que se adivinha, quando eu morrer, espero que não esqueçam de colocar-me os óculos. A leitura irá ser tão veloz, num recuo tão vertiginoso, que não quero ser traído por um olhar cansado.
terça-feira, agosto 21, 2007
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