domingo, abril 27, 2008

Quanta dor.
É mesmo assim que a alma bebe este sufoco. Falta o ar, desmanda-se o ímpeto do fôlego.
Gostava de ter nascido em família, viver os laços, ter no sangue o doce trago de um qualquer, mesmo que solitário, apego a algo que não precisa ser pensado ou ensaiado.
Neste teatro da existência, o quanto me sinto incapaz, impotente, inconsequente, esquizofrénico e insano... ai, ai ... até morrer seria um insulto perante o destino.
O quanto doi acreditar que o fado que a vida nos informa é um horizonte perene e indeclinável.
Sou um filho da ficcção marvel e dos heróis de uma solidão de multidões.
Para quê insistir nos valores, na dignidade, no éden que povoa a paciência de viver em harmonia?
Olhar para trás é o mais cruel dos destinos. Olhar para o futuro é o mais terrífico porto de abrigo.
Ai, ai... afinal, só mesmo a dor é o conforto possível.

Hoje é mesmo um daqueles dias. Vou perder todos os jogos de xadrez deste campeonato em que me envolvo e ficar com o peso na consciência de saber, de antemão, que deixei os meus adversários prostados na indignidade de ver de tão evidente modo que perdi pelo simples desplante de apenas saborear este prazer da derrota por mera ausência de vigor, por voluntária inércia de egoísmo. Vou perder sem ser vencido. Que falta de dignidade.

Hoje abomino o super-herói. Desprezo Nietszche, desprezo Marx, desprezo Cristo. A vida não tem heróis. A vida não tem mel que possa curar a dor da alma.

Hoje é mesmo um dia como nunca tive. Quem me dera um daqueles momentos solitários no segredo da clausura. Quem me dera um daqueles dias da luz do silêncio em que todos os reclusos são obrigados à escuridão da noite em permanente alerta de sono falso. Quem me dera ter tentado a fuga ao destino... e ter falhado de modo fatal. Quem me dera ter resignado e aceitar um modo de vida em que a liberdade fosse apenas uma consequência marginal.

Mas não. Neste percurso de tantos anos sou um maldito ser normal. Normal no trabalho, normal nas relações sociais, normal nas aprendizagens. Às vezes, mais que as desejadas, normal no sorriso no quiosque onde compro a revista da semana.

Mas nunca me libertei deste meu estigma de ser estranho.

E tão estranho me vivo que confesso tão distante o meu passado, tão amargo o meu futuro, que é mesmo estranho poder olhar-me neste presente em que persisto. Vou aceitar que não consigo evitar este ritmo do meu peito, este pulsar do meu coração, este curso do meu sangue sei lá em que corpo, por qual consciência, banhando uma tão confusa memória. Entrego-me ao tempo e do tempo recebo uma tempestade de gritos. Ai, ai... onde ficou a minha aventura?

Esta virose de marginal nunca me libertou. Sou um marginal sem conceito, sem imagem, sem cor, sem palavras de ordem, sem farrapo, sem adrenalina. Sou um insulto à marginalidade. Não tenho lugar na menos bem organizada comunidade de marginais, porque, mesmo tendo respirado esse doce sabor de uma vida marginal, tendo vivido e comungado nela, nunca fui elemento digno de tal pertença. E fora desta infecção, sou um infecto social.

Hoje foi um dia em que plantei. Procurei ressuscitar uma planta moribunda, entreguei várias outras à terra que irão cumprir o ciclo da vida. Tenho inveja destes seres. É tão simples estar na natureza cumprindo esta tão complexa e difícil de entender missão que é a vida. Dentro de algumas semanas irão apresentar aquele verde viçoso e glorioso de quem olha o sol, bebe a água, recicla a terra, e alimenta o destino. Onde está a alma? Será a alma apenas um espinho da natureza humana? será que apenas podemos ser livres quando detivermos a sageza de existir próprio de uma planta?

Não sei. Hoje é um daqueles dias em que não consigo dizer coisa com coisa. É um daqueles tais dias em que, ainda bem, ou talvez infelizmente, não somos como um heroi marvel, equipados com tecnologia robótica em que, por graça do destino, poderiamos carregar no power off e liquidar esta cobardia de estar vivo.

Hoje é um daqueles dias em que o mundo podia dar-me o bónus de me adormecer e retirar-me aquele peso insuportável de umas gramas de alma.

Ai, ai. Quero esquecer.

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