segunda-feira, junho 16, 2008

A mariposa dourada
A euforia percorria todos os rostos como uma onda de nevoeiro contagiante que lambia as faces sem olhar a tempo, presenças ou ausências. A festa continuada atravessava todas as vias do espírito e as pessoas caminhavam em alegre frenesim, sem cansaço que as perturbasse nem humores menos desejados.
É neste ambiente de multidões que ele percorria o seu silêncio de ideias. Procurava com o olhar, mantendo o corpo resistente aos encontrões e lufadas de transpiração mesclada em perfumes de toda a impureza. Naquela cidade todos os anos acontecia aquela manifestação de magia que misturava todos os seres, novos e velhos, ricos e pobres, tristes e contentes, numa aventura que festejava o alcançar do saber, da sageza, do futuro a construir e da emoção de poder, num dia de tanto êxtase, tudo isso esquecer e deixar apenas o instinto mais primário gritar com fulgor, com excesso e despudor, a glória de acreditar no destino.
E encontrou. No meio de tanta gente, com aqueles veículos enormes decorados como num desfile de carnaval e carregados de jovens libertos para ostentar a sua pose de senhores do tempo e da oportunidade, a sua visão detectou o sorriso que procurava, o motivo de toda a sua existência e a garantia de coragem para continuar no dia seguinte com a perseverança de quem tem um destino traçado e um motivo para o percorrer. Rapidamente armou a câmara e, discreto e mantendo um sorriso cúmplice apenas com a voz do seu íntimo, pressionou o botão, registou a alegria, a cor, o ar que sai vigoroso do peito, as cantigas de grupo, as imagens de vida. Desde há muito tempo que tinha na expressão da emoção uma mera extensão da representação social e, por mais que procurasse outro modo de se sentir junto dos outros, desde há muito tempo que a paixão de sentir uma lágrima de alegria nunca passava de uma mero ensaio de relacionamento interpessoal. Mas, desta vez, mesmo sem pensar ou vislumbrar qualquer reflexo trazido da razão e do zeloso entendimento que sempre precedia as suas acções, o dedo, como escravo libertado e tomado pela comoção mesmo antes do sangue aquecer na pele, pressionou de novo o botão e registou de novo tudo aquilo que já tinha gravado e tudo o mais no quanto a paisagem se tornava tão igual e tão diversa. E continuou, pressionando, pressionando, como se um movimento mecânico, movido a paixão, não mais tivesse a sorte de se deter, até à exaustão da memória da máquina de fotografias. Baixou o braço, desviou aquele olhar da procura conseguida, passou a língua no canto da boca, tomou o sabor do ar antes mesmo de poder inspirá-lo, desviou o rosto, colocou a câmara no bolso e guardou, mantendo a mão em concha protegendo-a, a memória, pois que aquele momento presente já era tão mais importante quanto já existia gravado numa memória que perduraria no tempo, imutável no destino. Um sorriso de vaidade.
Caminhou descendo a calçada, o barulho incessante, as diversas músicas chocando-se e misturando-se ao longo do percurso, as multidões sorrindo e apreciando ansiosos o aparecimento de um glorioso herói querido. Mas já tudo estava para lá da barreira do sonho. Caminhou levando na recordação o precioso momento e a certeza de poder desfrutá-lo sempre que a saudade o assaltasse.


Ao olhar de relance para o lado, por cima do ombro, de modo discreto e tímido, num fugaz gesto de alerta, em vigília no meio da multidão, encontrou uma cabeleira, bela, brilhante, negra como a luz de nenhuma estrela e leve como a pausa de um poema. Gostaria de poder um dia desenhá-la, traduzir todos aqueles filamentos de brilho tão intenso num negro tão profundo, com traços quanto tão finos quanto a imaginação poderia alcançar na contagem daquela imensidão ondulante e livre.
Sentiu qualquer coisa de estranho naquela visão cativante. Um fio de cor artificial, de um polímero qualquer, caído entre os cabelos daquela jovem perturbava a harmonia, feria a emoção da pureza e da imagem que o seu espírito ansiava guardar de tom genuíno na sua memória e, sem pensar, dando largas a um instinto, num segundo momento de fraqueza das emoções, de debilidade da razão, estendeu a mão e retirou-o com todo o cuidado, procurando emprestar silêncio ao gesto. Mas, mesmo assim, um rosto rapidamente se voltou, olhando em surpresa, questionando o desconhecido num olhar penetrante e surpreendido.
Ficou tão atrapalhado, com receio de ser mal interpretado, envergonhado da sua aventura e, sem demoras, mostrou-lhe o objecto estranho que retirara daquele lindo cabelo, como que rogando a aprovação do gesto, num olhar de penitência. Na ponta dos dedos, entre o polegar e o indicador estava a razão daquele momento, o pequeno fio que, sabe-se lá vindo de onde, de certeza não era pertença daqueloutro ser que ostentava uma tão natural beleza. Os olhos dela, de um mesmo negro brilhante, espelho interior do tom do seu cabelo, esboçaram tranquilidade e os seus lábios arquearam-se, num sorriso de calmaria, como se a tempestade jamais tivesse porta para entrar.
Abriu os dedos e deixou o fio cair, em voo embalado, perdendo-se entre a multidão. Mas o olhar dela fixou-se num outro movimento. O músculo da mão, no espaço entre aqueles dois dedos, tinha gravada uma pequena mariposa que, na contracção/descontracção dos tecidos parecia mover as asas. O olhar acompanhou a mariposa e sorriu de modo feliz. Corou. Não sabia o que dizer, nem tinha coragem de ouvir o que quer que fosse. Desde bastante novo que aquela mariposa estava tatuada na sua mão e guardava, no silêncio de todos os gestos, um testemunho tão rico quanto pobre nas desventuras. Aquela mariposa era, mais do que tudo, uma certeza que o passado existiu e, mesmo que a necessidade o exile no esquecimento, ele é como o voo de uma borboleta preso na tela de um cinema.

Perante aquele sorriso tão simples e complacente não resistiu à tentação de encolher a mão, torcer o pulso numa ligeira rotação e voltar a abri-la com a palma voltada para cima e ostentando uma bela mariposa, rendilhada a um ouro brilhante e ofuscante e com um tronco povoado de brilhantes que refractavam as cores do universo em todas as direcções. Os olhos dela abriram-se estupefactos perante uma magia tão breve e inesperada e ficou incapaz de esboçar qualquer gesto, qualquer palavra, não conseguindo expelir qualquer gota do ar refém no seu peito.
Lentamente, num movimento místico e suave, colocou a mariposa dourada no seu cabelo. Ficou fixa, sem deslizar, como se o segundo momento da magia ainda estivesse escondido naquele pequeno artefacto nascido da pele de um desconhecido. E, desta vez, ao contrário daquele fio estranho que antes lá esteve, a borboleta deixava passar pelo seu corpo a beleza do preto fulgurante de cada fio de cabelo, como se fosse a lente que sempre existiu naquele universo e trouxesse, como lente mágica daquilo que o olhar não sente, a beleza que a natureza esconde no seu orgulho.

Fechou o olhos por um segundo. Era uma jovem que, naquele dia de festa, na partilha com os amigos, bebera já mais do que era habitual. Estava feliz, descontraída e cheia de energia para desfrutar aquele dia único no ano. Encontrar, naqueles segundos, alguém com um tão estranho comportamento deixava-a na dúvida. Estaria alucinada? Estaria a ver além dos limites da razão? Fechou os olhos por um segundo, procurando repor o pensamento e encontrar uma explicação para aquele momento. Quando voltou a abri-los, ele já lá não estava. Parecia que jamais lá teria estado. Tudo parecia nunca ter acontecido, como se o sonho tivesse feito uma curta visita à realidade e, enquanto o olhar permitiu, deu largas à sua arte. Mas a mariposa lá continuava, como se tivesse atravessado um portal divino e nascido naquele corpo. Lá continuava, como se sempre lá tivesse estado, como se fizesse parte daquela conjunto. E, sem conseguir encontrar explicação, a jovem sentia mesmo isso. A mariposa não tinha nada de estranho, pelo contrário, é como se sempre a tivesse consigo e, mais ainda, se a tirasse iria sentir que alguma coisa de si se teria apartado.

Ele continuou descendo a calçada. A aventura do seu passado tinha começado.

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