a mariposa dourada III
O que mais precisaria para se sentir preenchido de alma, de sangue, da frescura do tédio?
Nada mais poderia ocupar o seu tempo que a memória de um tempo perdido. A sua mente estava infecta de um vazio sem explicação plausível. Era nascido de uma memória e de um espaço sem destino. Procurava nas rugas discretas da parede do seu quarto imagens que só o olhar conseguia desenhar, como se a face da imaginação tivesse aquele tom pálido a duas dimensões disfarçadas num esquiço de estuque. Procurava no reflexo da sua sombra uma qualquer materialidade de um anseio de existência. Procura justificar-se no espaço, no tempo, na escrita do seu destino.
Quando caminhava pelas ruas sabia bem o quanto via por quanto não era visto. E o silêncio de cada passo era a amargura de uma qualquer magia perdida na tristeza de um universo de fantasias distante e distanciado do seu abraço, do seu desejo de amar, de perseguir uma fé, de ser humano.
Mas não. Era inexoravelmente um mero feiticeiro criador de mariposas.
No pequeno espaço do seu polegar nascia aquele pedaço discreto de marfim dourado, dia a dia, desejo a desejo, lágrima por lágrima. Desenvolvia-se como um pingo de tinta perdido na água, sumia-se na pele, renascia na carne, brotava do olhar, e uma mariposa singela, inocente, fresca e livre, de um sopro branco e luminoso, libertava-se e voava longamente pelo pensamento, criando mundos de alegria, universos de sibilantes tons de cor, numa vertigem louca como água que cai sem leito de rio.
Olhando a mão, olhando a pele, olhando o íntimo do seu ser, ficava um rasto de sangue negro e podre, como um parto de bruxa debochada em noite de lua, como carne velha abandonada à dança das moscas e orgia de larvas sedentas de odores que a memória obsta a conservar.
Olhando a mão, apenas as lágrimas o confortam porque ainda lhe trazem o sal que lhe toca o canto do lábio e que a língua saboreia como único mel possível de um vortex de luz que dele se apartou.
Era sempre este ritual de silêncio que ocupava as suas noites antes do sono. Sentado na cama, recordava o dia como se uma vida nele tivesse acontecido e sentia-se como mago de um gigante berlinde povoado de mariposas e vigiado por voos que conservam a sombra, que devolvem a luz, que estimulam a chuva, que abrem o rosto da lua, que alternam as marés, que pesam o ar, que induzem o sonho. As mariposas que em todo o lado se insinuam e que, por força do destino, todas as noites dele nasciam, num silêncio ingrato, num ritual sem fiéis, numa clausura de tristeza.
Sabia que no outro dia iria acordar, sair à rua, vestir a pele daquele tempo, falar a voz de cada momento, olhar as cores de cada luz e talvez, talvez ainda, pudesse encontrar um ser digno de partilha, um rosto com pele macia como a asa de uma borboleta e aquele envolvimento elegante no passo como uma dança de colibri junto de uma flor prenhe de néctar. Talvez volte a acontecer. Ou talvez a manhã que vem seja chuvosa, lave o pólen que invade o ar e esconda a luz que o sol asperge sobre a vida. Talvez afinal seja feio e a tristeza oculte as cores do arco-íris que anima a alma e reste apenas o outro lado do polegar, aquela parte de um calo disforme, duro como a pele de um demónio, amargo como aquilo que não se sente.
Quem sabe o que virá amanhã?
Resta-lhe a certeza que há destino. O mistério nunca residiu na recordação. É marca do futuro.
Nada mais poderia ocupar o seu tempo que a memória de um tempo perdido. A sua mente estava infecta de um vazio sem explicação plausível. Era nascido de uma memória e de um espaço sem destino. Procurava nas rugas discretas da parede do seu quarto imagens que só o olhar conseguia desenhar, como se a face da imaginação tivesse aquele tom pálido a duas dimensões disfarçadas num esquiço de estuque. Procurava no reflexo da sua sombra uma qualquer materialidade de um anseio de existência. Procura justificar-se no espaço, no tempo, na escrita do seu destino.
Quando caminhava pelas ruas sabia bem o quanto via por quanto não era visto. E o silêncio de cada passo era a amargura de uma qualquer magia perdida na tristeza de um universo de fantasias distante e distanciado do seu abraço, do seu desejo de amar, de perseguir uma fé, de ser humano.
Mas não. Era inexoravelmente um mero feiticeiro criador de mariposas.
No pequeno espaço do seu polegar nascia aquele pedaço discreto de marfim dourado, dia a dia, desejo a desejo, lágrima por lágrima. Desenvolvia-se como um pingo de tinta perdido na água, sumia-se na pele, renascia na carne, brotava do olhar, e uma mariposa singela, inocente, fresca e livre, de um sopro branco e luminoso, libertava-se e voava longamente pelo pensamento, criando mundos de alegria, universos de sibilantes tons de cor, numa vertigem louca como água que cai sem leito de rio.
Olhando a mão, olhando a pele, olhando o íntimo do seu ser, ficava um rasto de sangue negro e podre, como um parto de bruxa debochada em noite de lua, como carne velha abandonada à dança das moscas e orgia de larvas sedentas de odores que a memória obsta a conservar.
Olhando a mão, apenas as lágrimas o confortam porque ainda lhe trazem o sal que lhe toca o canto do lábio e que a língua saboreia como único mel possível de um vortex de luz que dele se apartou.
Era sempre este ritual de silêncio que ocupava as suas noites antes do sono. Sentado na cama, recordava o dia como se uma vida nele tivesse acontecido e sentia-se como mago de um gigante berlinde povoado de mariposas e vigiado por voos que conservam a sombra, que devolvem a luz, que estimulam a chuva, que abrem o rosto da lua, que alternam as marés, que pesam o ar, que induzem o sonho. As mariposas que em todo o lado se insinuam e que, por força do destino, todas as noites dele nasciam, num silêncio ingrato, num ritual sem fiéis, numa clausura de tristeza.
Sabia que no outro dia iria acordar, sair à rua, vestir a pele daquele tempo, falar a voz de cada momento, olhar as cores de cada luz e talvez, talvez ainda, pudesse encontrar um ser digno de partilha, um rosto com pele macia como a asa de uma borboleta e aquele envolvimento elegante no passo como uma dança de colibri junto de uma flor prenhe de néctar. Talvez volte a acontecer. Ou talvez a manhã que vem seja chuvosa, lave o pólen que invade o ar e esconda a luz que o sol asperge sobre a vida. Talvez afinal seja feio e a tristeza oculte as cores do arco-íris que anima a alma e reste apenas o outro lado do polegar, aquela parte de um calo disforme, duro como a pele de um demónio, amargo como aquilo que não se sente.
Quem sabe o que virá amanhã?
Resta-lhe a certeza que há destino. O mistério nunca residiu na recordação. É marca do futuro.