recebi um elogio: sou um canalha
Quando finalmente mostram os dentes….
Os dentes não são podres. São tingidos de um castanho não criado pelos cigarros mas mais próximo de uma forma de mostruário daquilo que ocorre lá mais fundo, ao longo do cólon transverso. O odor corporal aproxima-se de um misto de reciclagem de um fugaz toque de desodorizante de loja chinesa, não aplicado por discrição do trato, mas por ausência do hábito, e um forte bafo de álcool destilado por poros vivos de gorda matéria transbordante que desde há vários dias venceu a investida da água corrente, absorvendo-a, humilhando-a e reduzindo-a à mísera condição de translúcida baba de charco.
A voz é bíblica. Não porque leu algum texto sagrado ou tenha algum mérito de auferir a propriedade de um discurso digno de um espírito douto e elevado, sábio e ponderado. Mas porque tomou o discurso do padre da paróquia como a mensagem que inspira medo. E afinal porque interpretou que o medo, deus e as inventivas das santidades, são modelos dogmáticos do poder mágico da palavra. E como o medo e o poder lhe inspiram autoridade e subserviência, tomou tal discurso como se medo, poder, autoridade e subserviência pudessem representar qualidades dignificantes da condição humana. Com tal engano em tal mole de sinapses neurais em franco défice de energias, a sua voz representa a viva imagem do imponente grito do homem tretas, uma nova versão que o sapiens pode correr o risco de adoptar por imposição de um destino catastrófico.
Dirá que é o único. Com o seu fim termina o mundo. A sua indispensabilidade será, em seu tão cuspido discurso, uma contingência indeclinável da natureza. Na profissão, jamais alguém o pode secundar, quanto mais igualar, e na vida só deus pode conhecê-lo, pois, com efeito, só mesmo uma divindade poderá suportar tanto nojo de um mar tão intenso de leveduras balbuciantes entre a cultura de bactérias do fétido espaço onde jaz uma língua permanentemente afogada em saliva alucinada e o fosso longo de gordura bojuda que suporta tanta bebida diversificada que, em qualquer filho de deus, devolveria vómitos sem fim.
Este é aquele que precisa de dizer quem é. Que tem que propalar o que faz, que precisa de ensaiar ao espelho o discurso, a pose, o bafo que limpa com a manga. Que precisa de gritar para ser visto. Se assim não fosse, o homo sapiens seguiria feliz. Já feliz é o espelho, porque é destituído do dom do olfacto.
Mas este é também aquele que prima pela impunidade dos seus actos, porque de actos não podemos falar, mas sim de devaneios de um percurso esquizofrénico de um espírito cujo habitáculo craniano há muito tempo foi vítima de um processo de degeneração progressiva por falta de condições de habitabilidade para qualquer neurónio minimamente sóbrio.
Este é aquele que aturamos diariamente. O tal guru de uma qualquer coisa com uma qualquer autoridade e um elevadíssimo nível de colesterol e triglicerídeos em doses qb. E quando deus se cansar, obrigá-lo-à a vomitar o fígado.
E não se pense que tenhamos a ingenuidade de sentir que somos melhores ou mais dignos do que este tipo de espécimen para estar neste mundo. È porque olhando para eles sabemos bem o quanto somos bem piores e menos dignos: ao dizer alarvidades como as que este verme profere na impunidade dos seus delírios, seríamos esmagados como os malditos vermes em que nos elevaríamos. Ao debitar um hálito tão fétido ou um odor corporal como o deste zombie alegre, seríamos olhados com reprovação e desconfiança. E se a bebedeira alguma vez fosse tão farta e rica como a deste iluminado pelo dom da absorção rápida de álcool na excessiva camada de sebo corporal, seríamos alvo de um exame de consciência que dispensaria qualquer melhor conselho divino, como a própria vida muito bem o ensina…
Por aqui ficamos, neste silêncio.
Nem vale a pena chorar.
Se o choro fosse daqueloutro, seria um acto de contrição.
No nosso caso, seria tido, no senso comum, como um ensaio de crocodilo.
Puta de vida.
sábado, julho 15, 2006
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